sexta-feira, 25 de julho de 2014

A COPA DAS COPAS CANÁBICAS

“O brasileiro é o novo japonês!”, exclamou um funcionário do estande da loja Planeta Ganja assim que cheguei na “3ª Copa Cannabis Uruguay” junto de vários conterrâneos emocionadíssimos, largando o dedo em seus smartphones. De fato, seja em Cochabamba, Cuzco, Buenos Aires ou Montevidéu, é impossível circular sem cruzar com grupos de turistas brasileiros barulhentos fazendo uma tonelada de selfies por minuto, para, em seguida, pedir a senha do wi-fi e congestionar a rede subindo álbuns e álbuns de fotos para tirar onda com quem tá na terrinha no feice, insta e zapzap. No fim de semana passado, além dos habituais turistas coxinhas de sempre, Montevidéu recebeu vários narcoturistas canábicos. Uma legião de ativistas, entusiastas, cultivadores e jornalistas especializados em maconha levantaram fumaça na terra dos Charrua, vindo não só do Brasil, mas da Argentina, Chile, Colômbia e países do norte. Os brasileiros podiam não ser a maioria do bonde, mas certamente foram os que mais fizeram barulho — e fumaça.
A Copa Uruguay já é realizada há três anos. As duas primeiras aconteceram em total clandestinidade, mas, dessa vez, o alvoroço foi maior por se tratar da primeira Copa depois da lei que legaliza a maconha no Uruguai entrar em vigor.  Pela primeira vez, o evento de entrega dos prêmios foi realizado de portas abertas ao público, numa boate ao lado do lúdico Parque Rodó, à margem do Rio da Prata, reunindo mais de 1.600 fumetas. Para isso, o evento teve de se adaptar às novas regras, o que causou alguns desconfortos e polêmicas como veremos a seguir. É interessante lembrar que, no Uruguai, a maconha é descriminalizada há décadas por uma lei de 1975, que, por incrível que pareça, foi criada durante a ditadura militar local. Embora essa lei garantisse o direito de usar maconha em qualquer lugar (salvo lugares fechados, nos quais qualquer tipo de fumo é proibido), o cultivo e comércio da planta permaneciam ilegais, e como essa lei (assim como a nossa) não especificava quantidades que diferenciem o usuário de traficante, eventualmente, algum cultivador ia preso.
A cena começou a mudar quando, em 2011, o casal Juan Vaz e Laura Blanco fundaram a AECU, a Asociación de Estudios del Cannabis del Uruguay. O casal, que planta maconha desde os anos 1990, vivia uma vida autossustentável numa chácara criando vacas, porcos e galinhas, além de uma horta comestível e canábica quando sua utopia foi frustrada por uma operação policial que botou Juan para trás das grades por 11 meses. “Estávamos deitados nós dois e nossos três filhos assistindo ao filme dos Simpsons quando seis policiais invadiram a propriedade portando fuzis. Levaram as plantas, computadores, monitores e tudo de valor que podiam. O cárcere mudou tudo! Depois do cárcere, tivemos que nos tornar ativistas”, me contou às lágrimas Laura, que hoje preside a AECU.
Detalhe de um cultivo caseiro no Uruguai. 
Desde então, a AECU se esforçou em não só defender outros cultivadores presos, como apresentar um projeto de lei legalizando os clubes canábicos que acabou tendo certa influência no anuncio do presidente Pepe Mujica, em 2012, de uma proposta inédita no mundo de regulamentação do cultivo e comércio da maconha. “Em nosso projeto, defendíamos basicamente que o controle da maconha ficasse na mão dos clubes de cultivadores. No projeto atual, o controle da maconha fica na mão do governo e o acesso pode ser feito por todo mundo. Talvez esse projeto seja até mais democrático, e temos de nos adaptar”, explica Laura. Sempre cauteloso e pressionado pela ONU, Mujica optou por caminhar a passos lentos, atrasando várias vezes a data de conclusão do projeto, que entraria em vigor em junho deste ano, mas foi adiado para o inicio de 2015. No entanto, uma espécie de anistia foi declarada para os próximos seis meses, quando cultivadores e clubes não serão perseguidos.
Os cultivadores recebem as amostras que vão julgar nesse potinho. 
Cada amostra vem com uma fichinha dessas para registrar as notas. 
Para quem não é familiar, as Copas Canábicas sul-americanas costumam seguir mais ou menos o modelo da Copa del Plata, realizada anualmente desde 2001 na Argentina de forma clandestina. Os cultivadores podem se inscrever doando cinco gramas de suas colheitas. Essa amostra passa por uma primeira curadoria e, se for aprovada, é fotografada, recebe um número de identificação e então é dividida numa cota distribuída a um júri especializado e outra que é repartida entre os próprios cultivadores, que recebem cinco amostras de 1g cada. Todos dão notas baseadas na condição física, aroma, sabor e efeito. Nas copas canábicas do Brasil (já foram pelo menos quatro) e da Argentina, por motivos de segurança, celulares e câmeras são proibidos e os competidores só recebem suas amostras no dia do evento, cujo local é revelado horas antes. No entanto, como a nova regulamentação uruguaia proíbe degustações públicas (num artigo que já ganhou apelido de “artigo Copa Uruguai”), os cultivadores receberam as amostras dois dias antes do evento e teriam de chegar lá no evento já com a nota. E foi aí que fodeu tudo.
Para os visitantes brasileiros, a Copa Cannabis Uruguay muito se pareceu com a Copa das Copas. Muita expectativa, muita emoção, um tanto de desorganização, falhas de comunicação e tretas mil entre maconheiros. Quem conseguiria imaginar que uma disputa entre maconheiros pudesse esquentar ânimos tal qual uma briga de torcidas organizadas? O estereótipo do maconheiro pacífico e apático está longe da realidade. Já outros lugares-comuns, como esquecer de passar recados importantes e uma incrível habilidade de se perder em autoestradas retas, sem saídas ou retornos, são regra.
Grafite do lado de fora da “Planeta Ganja”. 
Na quinta-feira anterior ao domingo do evento houve uma festa de abertura da growshop Planeta Ganja, instalada num incrível casarão de 1930, que chega com a meta de trabalhar apenas com produtos de altíssima qualidade, importados da Holanda, para atender a demanda dos clubes de cultivadores. A casa ainda está em obras, mas quando concluída, contará com espaço para oficinas de cultivo e um imenso jardim de inverno no terraço para aulas práticas. A ideia é atender não só ao cultivador caseiro, mas principalmente aos clubes canábicos.
“Growbox”, espécie de estufa para o cultivo caseiro, em exposição na Copa Cannabis Uruguay. 
Segundo a nova lei uruguaia, qualquer cidadão residente pode se registrar na IRCCA (Instituto de Regulación y Control del Cannabis, que deve começar a funcionar só ano que vem) e optar por três meios de acesso: o autocultivo (em que terá direito a possuir em sua residência até seis plantas em floração), a compra em farmácias (que venderão cannabis cultivada pelo governo, mas que ainda estão longe de começar a funcionar) ou a associação em um clube canábico. Os clubes são associações civis de 15 a 45 sócios que podem ter até 99 plantas e colher 40g mensais cada. Até agora, existe somente um clube operando no Uruguai, o El Piso (algo como “O Térreo”) que opera dentro dos limites impostos do governo e aguarda apenas a criação da IRCCA para se legalizar totalmente. Uma das imposições do governo em especial ainda os preocupa: o local onde os sócios devem retirar sua cota mensal deve ser o mesmo em que a canábis é cultivada — o que implica que os 45 sócios conheçam o local do cultivo. Atualmente, a maconha do El Piso é cultivada numa sala num edifício de escritórios no centro de Montevidéu acima de qualquer suspeita e apenas três pessoas conhecem sua localização. A preocupação em revelar o local para tanta gente é uma questão de segurança. Roubos a cultivos têm sido muito comuns no Uruguai, principalmente quando ocorrem em exterior – “Eu cultivava no terraço da minha casa, aí os caras que vieram instalar a fibra ótica na minha rua viram de cima do poste e roubaram três plantas minhas”, explica Diego Garcia, o jardineiro responsável por cuidar das 99 plantas do clube El Piso. Portanto, antes de mais nada, é preciso saber bem quem são essas pessoas que estão se associando, além de calcular custos e planejar o método de cultivo. Quarenta gramas para 45 associados significa 1,8 kg por mês. Para atingir essa meta é preciso de tempo e muito planejamento, e o mais interessante é que salvo o jardineiro, que recebe salário, o clube não tem fins lucrativos, conseguindo produzir maconha de altíssima qualidade a cerca de 2,60 dólares a grama. “Você precisa decidir como vai plantar. Se for no interior, você precisa de um investimento maior em equipamento e vai ter uma despesa de eletricidade altíssima, mas se você plantar em exterior, você precisa contratar uns caras com armas para vigiar seu cultivo!” explica Diego.
Esse maluco viajou mais de três mil quilômetros com esse bagulho e não conseguiu competir. 
Um grupo de mais ou menos 30 brasileiros, a maioria usuária do fórum Growroom, dentre pelo menos sete cultivadores com amostras, ativistas, jornalistas, amigos e abas começaram a desembarcar na cidade no meio da semana. Alguns dizem que foi por falha de comunicação e outros por má vontade, mas no final das contas os cultivadores brasileiros não conseguiram se inscrever na Copa. A ativista Laura, uma das organizadoras da Copa, tentou armar uma Copa Internacional em Villa Serrano, uma cidade de campo a 140 km da capital. Acabou sendo a maior roubada, pois só os brasileiros compraram a ideia, e tudo que eles queriam era ganhar dos argentinos numa copa canábica (e tenho certeza de que ganhariam). Frustrados com a misteriosa não participação na Copa, os brasileiros resolveram competir assim mesmo, organizando no dia seguinte da não Copa de Villa Serrano sua própria Copa paralela num hotel no centro histórico de Montevidéu, que deve ter sido decorado pelo diretor de arte dos filmes do Almodovár. O pessoal se dividiu em dois quartos; num, os próprios cultivadores, no outro, bem mais cheio, o resto da galera. Cada cultivador se inscrevia com um bud e dois baseados. Primeiro, o bud circulava para que pudesse ser feita uma apreciação visual, em seguida, os baseados rolavam e o pessoal votava numa cédula improvisada. Num cantinho do quarto da muvuca, o cultivador Coruja exibia um arsenal de extrações, que oferecia para a galera via dab. O ápice da Copa aconteceu por volta de meia-noite, quando o sujeito de mullets na portaria do hotel chegou e disse: “olha só, vocês podem fazer festa com 50 convidados de fora, fazer barulho pra caralho e fumar um monte de maconha, tá maneiro! Vocês só não podem fazer isso no corredor ok? Ah! E rola essa bola pra cá...”.
Amostra da Copa Growroom Uruguai circulando.

Cédula de votação da Copa Growroom Uruguai. 
Ao final, a Copa Growroom no Uruguai terminou com a Chemdawg x Double Diesel e a Cinderella 99 do cultivador Não Compre Plante em primeiro e segundo lugar respectivamente, e a Cinderella 99 do cultivador Coruja em terceiro. Alguns dos jurados da Copa Cannabis Uruguay deram um rasante no evento brazuca e ficaram impressionados com a qualidade dos extratos do Coruja. Como os extratos são julgados apenas pelo júri especial, ainda havia tempo de inscrevê-los, o que foi feito no dia seguinte mediante pressão dos dois ganhadores da Copa Growroom, que também haviam levado extratos.
Coleção de extratos do cultivador Coruja. 
Para quem ainda não está ligado, os extratos são a nova onda da maconha. Trata-se de uma maneira de aproveitar os “trimmings”, as folhas resinadas não fumáveis que nascem nas flores da canábis. Utilizando gás butano, solventes e inúmeras técnicas diferentes, é possível separar totalmente as substâncias medicinais e psicoativas da canábis de suas fibras e matéria orgânica criando esses extratos superpotentes. Com a consistência variando do óleo a pedrinhas, a melhor maneira de consumir esses extratos é por meio do dab, uma modalidade canábica que utiliza um bong adaptado, no qual uma peça de titânio ou vidro é aquecida com um maçarico até ficar incandescente.
A extração é colocada nessa peça incandescente com uma espécie de ferramenta de dentista e o calor da peça vaporiza o óleo sem combustão. Em lugares como a Califórnia e o Colorado, onde a produção dos extratos é legalizada, cultivadores dispõem de inúmeros equipamentos modernos para produzir e testar esses extratos. Já na ilegalidade, isso fica muito difícil, tornando sua produção muito arriscada e complicada. “Quando se usam solventes, é necessário um processo muito cauteloso de purga para não deixar nenhum resíduo na extração. Devemos lembrar que esses solventes são muito prejudiciais à saúde. E, ao mesmo tempo, sem danificar os terpenoides, que carregam o sabor e aroma da planta” disse Chirry Willy, experiente cultivador argentino que já ganhou a Copa del Plata várias vezes e integra o júri especial da Copa Uruguay desde sua primeira edição.
Seja de carro, armas ou bagulho, toda feira que se preze tem sempre umas gatinhas nos estandes. 
Essa doida veio de carona de Curitiba, sem grana nenhuma no bolso, para a Copa do Uruguay. 
No domingão, após uma tarde de muitos porros na feirinha que reunia vários estandes de parafernália, produtos para cultivo e bancos de semente, finalmente chegou a hora da premiação, precedida de um breve show de stand-up, do qual ninguém riu, pois estavam todos chapados demais para entender as piadas. A primeira categoria a ser anunciada foi a de extrações, com um breve discurso do Chirry Willy: “A disputa entre as extrações estava bem acirrada, até que hoje à tarde eu pude provar duas extrações de nível muitíssimo superior às demais, e que foram as campeãs”. Tratava-se de extrações feitas a partir de duas Cinderellas brazucas, a de Não Compre Plante no segundo lugar e a do Coruja em primeiro. Foram momentos emocionantes, em que a galera gritava “Brasil, porra!” na plateia e os cultivadores se enchiam de lágrimas.
Vários estandes entretiveram o público por horas. 
Em seguida, vieram as premiações para erva. Entre cada anúncio, uma breve “charla” de Chirry: “Devemos lembrar sempre que os padrões que estamos estabelecendo com essas Copas são os padrões que serão adotados para a maconha medicinal amanhã. Portanto, devemos dar extrema atenção ao controle de pragas, à umidade, para não criar fungos. Lembremos que se trata, sobretudo, de uma planta medicinal!”.
Diego Garcia exibe seu troféu na sede da AECU. 
A grande campeã da noite foi a Chocolope x Chamdawg D1, cultivada por Diego Garcia no clube El Piso. Os juízes também ressaltaram que esta se destacava das demais e Diego teve de assumir que nunca teria conseguido cultivar uma planta dessa qualidade em sua casa, afinal, graças ao clube, ele dispôs de equipamento de qualidade e um ano de experimentação e trabalho árduo. “Espero que ano que vem possamos criar uma categoria 'Clubes' e elevar cada vez mais o nível da disputa”, disse Juan Vaz.


Alguém, que não lembro quem, recebendo um prêmio. 
O Uruguai pode ainda não ser a Amsterdã do sul com que muitos sonham, principalmente porque o acesso da maconha ao turista está longe de ser liberado — esse assunto sequer é discutido no processo de regulamentação. No entanto, é inegável reconhecer a ousadia do presidente Mujica em aceitar o custo político de assumir publicamente o compromisso de legalizar a maconha em seu pequeno país. Também é inegável reconhecer os esforços da AECU em trabalhar junto com o governo para criar um dos projetos de regulação de maconha mais interessantes do mundo. O projeto ainda não é perfeito, mas é apaixonante — não visa o lucro, enquanto os clubes de cultivadores se esforçam para manter o custo da grama abaixo dos 3 dólares, o governo promete que a maconha vendida nas farmácias custará 1 dólar a grama, menos do que o prensado paraguaio. O fato é que a pequena nação do Rio da Plata vem atraindo muita atenção e investimentos internacionais.
Esperamos só que deixem os cultivadores brasileiros competir ano que vem. Se no futebol a gente é 7x1, na maconha não tem Maracanazo para ninguém.